Design de Personagem não é mais trabalho de uma pessoa só

Tempos atrás, os designers de personagens de animação trabalhavam em grande parte sozinhos, ou em parceria direta com o diretor do filme ou, às vezes, até com o elenco de voz. Hoje, no entanto, o Design de Personagens se tornou uma das áreas mais colaborativas da produção cinematográfica em animação. A prova disso pode ser vista em muitos dos principais concorrentes da temporada de premiações deste ano, e o nível de colaboração. Dessa forma, aqui está uma tradução livre deste artigo aqui da Animation Magazine, que entrevistou Designers de Personagem de algumas das melhores animações do ano passado.

Elio e os Aliens Ecléticos

Quando Matt Nolte entrou para a equipe do filme, os designs dos personagens humanos principais, Elio e Olga, já estavam em desenvolvimento. “O designer de personagens James Woods, que veio da Disney, criou designs realmente encantadores e simples, mas a simplicidade engana”, explica ele. “Gostamos muito do charme deles, mas faltava bastante anatomia — no sentido de rugas e marcas no rosto que ajudam na expressão. Começamos a adicionar uma ruga aqui, outra ali, e tentamos ver com quantas poucas poderíamos ficar, mantendo o charme original e, ao mesmo tempo, oferecendo o que os animadores precisavam.”

É claro que qualquer personagem humano tem um modelo da vida real como referência, mas o elenco de Elio é repleto de alienígenas de todos os tipos, vindos de diferentes mundos, que formam uma espécie de ONU intergaláctica. Para esses personagens, a equipe recorreu a fontes inusitadas, mas ainda terrenas. “O designer de produção Harley Jessup estava observando imagens microscópicas, animais microscópicos e mundos aquáticos, o que nos levou a coisas que normalmente não vemos em terra”, explica Nolte. Apesar das enormes possibilidades gráficas, ele ressalta que os designs também dependem profundamente da personalidade de cada personagem. “Helix, que tinha uma aparência meio molenga, é um sujeito pomposo e um diplomata”, diz. “Então eu olhei para criaturas marinhas infladas, como ouriços-do-mar e baiacus — coisas que me lembravam um diplomata pomposo.”

Design de Personagens Fantásticos

Da mesma forma, In Your Dreams, da Netflix Animation, ofereceu aos designers a oportunidade de criar um elenco de personagens fantásticos — incluindo o lendário Sandman e sua ameaçadora nêmesis, Nightmara — além de uma série de habitantes do mundo dos sonhos.

O mais marcante de todos, porém, é Baloney Tony, um brinquedo de pelúcia gasto pelo tempo, vindo do passado dos personagens principais Stevie e Elliot.

“Ele é uma girafa”, diz Pilcher, mesmo que o design não tenha o característico pescoço longo do animal. “Ele começou como um pônei e foi evoluindo, até que decidiram que ele deveria ser uma girafa. Então adicionamos os ossíconos (as protuberâncias semelhantes a chifres na cabeça da girafa) e colocamos algumas manchas nele. Mas ele é um personagem à parte.”

Nightmara, por outro lado, tem uma aparência mais aquosa, o que novamente reflete sua personalidade, observa Pilcher. “O que aconteceria se você misturasse água com areia?”, ele pergunta. “Provavelmente a areia se dissolveria. Nightmara é como uma tempestade, e se você pensar em uma tempestade, há relâmpagos dentro das formações de nuvens. Os valores dela se tornaram mais escuros do que tudo ao seu redor, então, quando você coloca relâmpagos dentro dos olhos ou da boca dela, cria um contraste muito forte.”

Pilcher acredita que “tudo é um personagem”, até mesmo os objetos de cena. “Se você olhar para a mesa da Stevie, por exemplo, há um pequeno relógio digital em forma de ovelha, o que tem a ver com sonhar”, diz ele. “A artista de storyboard Rebecca Sugar criou esse pequeno design.”

O Figurino é parte fundamental do design

Falando em figurinos, o fenômeno global da Netflix da Sony Pictures Animation, KPop Demon Hunters, quebrou um recorde que não tem nada a ver com bilheteria: o número de trocas de roupa em um filme de animação. A personagem Rumi, líder do trio de K-pop caçador de monstros, sozinha passa por 26 figurinos, segundo o diretor de arte de personagens do filme, Scott Watanabe.

“Eu desenhei praticamente todas as roupas das garotas e, no início, estávamos tentando encontrar uma forma de incorporar a ideia de armadura aos designs”, ele diz. “Chegamos a uma espécie de estética de motocross para os figurinos do primeiro palco de show, porque elas vão se apresentar, mas logo em seguida vão sair para matar um monte de demônios.”

Definir as personalidades distintas do grupo foi outro desafio inicial. “A Rumi já estava bem definida como personagem da história, mas eu ficava indo e voltando pensando: ‘A Mira é a fofa? Ou a Zoey é a fofa?’”, conta Watanabe. Zoey acabou assumindo o papel de “fofa”, com formas mais arredondadas e o cabelo preso em dois coques, enquanto Mira se tornou a mais durona, refletida em um design mais angular.

“As armas delas também refletem as personalidades de certa forma”, observa Watanabe. Ele também estudou cabelo e maquiagem com foco na estética coreana. “Eu trancei o cabelo da minha filha tantas vezes só para descobrir como desenhar aquilo”, diz.

Scarlet e o equilíbrio entre personagens

O cabelo também teve um papel importante no desenvolvimento da personagem-título de Scarlet, uma releitura em estilo anime de Hamlet, de William Shakespeare, produzida pelo estúdio japonês Chizu e lançada por aqui pela Sony Pictures Classics. “Para Scarlet, procurei expressar emoções como tristeza, dor e angústia que ela vivencia com mais profundidade em comparação aos outros personagens”, diz o designer de personagens Jin Kim, que se concentrou nos designs de Scarlet e do enfermeiro Hijiri, substituto de Ofélia na narrativa. “Além da diversidade de expressões, também pude enfatizar um pouco mais as emoções complexas da personagem por meio do aspecto despenteado do cabelo dela.”

Hijiri, por outro lado, recebeu propositalmente um cabelo muito simples e curto. “Quando os dois protagonistas aparecem juntos na tela, o equilíbrio entre eles é crucial”, afirma Kim. “É importante garantir que nenhum dos personagens seja excessivamente dominante, ao mesmo tempo em que se usa o contraste visual para torná-los interessantes. Scarlet recebeu uma silhueta complexa, enquanto Hijiri ficou com uma relativamente simples.”

O diretor do filme, Mamoru Hosoda, contribuiu com uma referência-chave para o design do rosto de Scarlet, permitindo emoções mais sutis do que muitos atores em live-action conseguem reproduzir. “O trabalho de design de Scarlet não levou tanto tempo quanto eu esperava porque o diretor Hosoda sugeriu usar quase sem alterações o design facial de seu trabalho anterior, Belle (2021)”, conta Kim. “Ele forneceu muitos materiais de referência, o que me ajudou a compreender suas intenções para a personagem.”

Curtiu saber um pouco mais sobre Design de Personagens? Então saca só os personagens incríveis nas animações que podem concorrer ao Oscar desse ano.

Boa Semana a todos!

Daniel desligando.

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